Por que grupos antivacina do Telegram ameaçam saúde pública no Brasil, segundo Unicamp

  • 29/03/2026
(Foto: Reprodução)
Grupos antivacina do Telegram ameaçam saúde pública no Brasil Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) analisaram, entre 2020 e 2025, mais de quatro milhões de mensagens publicadas no Telegram. O objetivo foi entender como conteúdos antivacina circulam no Brasil e por que representam risco à saúde pública. 🤖 O estudo, conduzido pelo Laboratório de Inteligência Artificial Recod.ai, identificou redes organizadas, uso de robôs e estratégias coordenadas que influenciam a recusa à vacinação. O banco de dados reúne 5,5 terabytes de informações, com conteúdos compartilhados por mais de 71 mil usuários em 119 grupos. Segundo os pesquisadores, o Telegram é um terreno fértil para a desinformação, já que oferece condições como menor moderação e maior anonimato. Além disso, a coleta de dados em outras plataformas é mais restrita. “Além de ser mais fácil tecnicamente a extração, o Telegram também se tornou um refúgio da desinformação, por conta dessa moderação que é mais maleável ali dentro”, afirma a pós-doutoranda Christiane Versuti, formada em ciências Sociais e comunicação e uma das pesquisadoras. A estrutura de disseminação também é organizada. De acordo com os pesquisadores, há diferentes tipos de canais e funções bem definidas dentro dessa rede. “Existem canais que somente mandam desinformação, existem canais que recebem e que mandam e existem canais que só recebem. Pelo volume, ficou claro, por exemplo, que existem robôs por trás disso”, explica a doutoranda Michelle Diniz Lopes, ntegrante da equipe de pesquisa, graduada em matemática e especialista em estatística e neurociências. Mensagens com desinformação são compartilhadas em grupo do Telegram Recod.ai/Reprodução Da venda de carteirinhas a 'protocolos alternativos' A pesquisa mostra que esses grupos vão além da desinformação. Eles também funcionam como espaços de práticas ilegais e potencialmente perigosas. “A gente vê crimes acontecendo ali de fraude, de venda de carteirinha”, afirma Versuti. Segundo os pesquisadores, há oferta de comprovantes falsos de vacinação, usados para burlar exigências sanitárias. Também circulam anúncios de “protocolos alternativos”, como supostos tratamentos ou métodos de “desintoxicação” pós-vacina, sem qualquer base científica. Além disso, há venda de cursos, suplementos e até hormônios, como testosterona, associados a promessas de melhora de saúde. Esses conteúdos incentivam a substituição de cuidados médicos por práticas não comprovadas. “Para além de somente divulgar narrativas, eles também induzem as pessoas a talvez colocarem a sua saúde em risco”, frisa a pós-doutoranda Ana Carolina Monari, jornalista e doutora em informação e comunicação em saúde. Comunicação mais acessível Para a equipe, combater a desinformação não depende apenas de remover conteúdos ou punir responsáveis. A forma como a informação científica chega ao público também precisa mudar. “Acho que uma forma de tentarmos alcançar essas pessoas é por meio da comunicação. De uma comunicação talvez mais compreensiva, mais empática”, afirma Monari. 📢 Segundo ela, muitos usuários desses grupos não se veem como desinformados, mas como excluídos do debate público. “Muitos deles dizem 'eu estou cansado de pessoas me dizerem que sou ignorante, que sou negacionista. E aqui eu me sinto acolhido para poder falar o que eu penso e as pessoas não vão me taxar por ignorante'”, detalha. Movimento antivacina é considerado ameaça à saúde pública Freepik Próximos passos 📱 Agora, a equipe trabalha na coleta e integração de dados de outras plataformas, como Instagram, YouTube e X (ex-Twitter), para entender como a desinformação circula entre diferentes redes e ganha escala. Além disso, os pesquisadores desenvolvem modelos de inteligência artificial capazes de classificar automaticamente os conteúdos. Um dos focos é identificar diferentes tipos de desinformação e entender como cada um se espalha. A equipe também quer avançar na detecção de conteúdos gerados por inteligência artificial, como imagens e vídeos sintéticos usados para reforçar narrativas antivacina. A proposta é criar um dos primeiros bancos de dados do mundo com esse tipo de classificação. “Tem um outro tipo de problema, que é quando a gente tem uma mensagem que ela não era realmente desinformativa, às vezes ela só era uma ironia, uma piada, uma charge, e às vezes em uma análise automática ela pode ser interpretada como desinformação e causar um equívoco em todo o processo de análise”, comenta Leopoldo Lusquino Filho, colaborador do Recod.ai e professor da Unesp. No médio prazo, os pesquisadores também querem aprofundar o entendimento sobre diferentes públicos. Isso inclui analisar como idosos e comunidades indígenas, por exemplo, consomem informação. “Os nossos dados que a gente está baixando, que a gente já baixou, que a gente vai baixar, eles vão ficar públicos para que a gente possa promover sempre o compartilhamento livre e transparente do conhecimento científico”, complementa Michelle Diniz Lopes. 👉 O banco de dados totalmente aberto, para uso sem finalidades comerciais, está disponível no Repositório de Dados da Unicamp. Clique aqui para acessar. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/03/29/por-que-grupos-antivacina-do-telegram-ameacam-saude-publica-no-brasil-segundo-unicamp.ghtml


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