Pirarucu com cerca de 400 filhotes viraliza nas redes; especialistas alertam para invasão
03/08/2026
(Foto: Reprodução) Casal de pirarucus com cerca de 400 filhotes viraliza nas redes
Um vídeo que mostra um casal de pirarucus (Arapaima gigas) acompanhado por centenas de filhotes viralizou nas redes sociais na última semana. As imagens, registradas por drone em um alagado do Rio Teles Pires, em Itaúba (MT), chamam a atenção pelo comportamento dos peixes e pela quantidade de filhotes.
Segundo pesquisadores, porém, o flagrante revela também outro fenômeno: o avanço de uma espécie invasora em um trecho onde ela não ocorria naturalmente.
O registro foi feito pelo pescador e influenciador Tiger Bilzerian, que costuma documentar a fauna durante expedições pelos rios brasileiros (veja o vídeo acima).
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Segundo ele, os peixes provavelmente tinham mais de 100 quilos e eram acompanhados por aproximadamente 400 filhotes. A quantidade reforça o elevado potencial de expansão da espécie na região e acende um alerta para os impactos que o pirarucu pode causar sobre a fauna nativa e o equilíbrio do ecossistema.
Casal de pirarucus com cerca de 400 filhotes viraliza nas redes, mas especialistas alertam para invasão biológica em MT
Tiger Bilzerian
O influenciador comentou como conseguiu produzir as imagens.
"Eu sempre gravo a natureza nos detalhes que são imperceptíveis. Tenho feito vários registros de drone e capturas de peixes grandes", afirma ele.
No entanto, embora o pirarucu seja um peixe nativo brasileiro, originalmente da Amazônia, ele é considerado uma espécie exótica invasora nesse trecho do Rio Teles Pires, explica Jean Vitule, pesquisador do Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e especialista em invasões biológicas.
Segundo ele, a distribuição natural da espécie sempre foi limitada por barreiras geográficas, como grandes corredeiras e cachoeiras, que impediam sua dispersão para determinadas regiões da Bacia Amazônica.
"Historicamente, ele habitava águas calmas e várzeas da baixada amazônica e não ultrapassava as grandes corredeiras e cachoeiras do baixo e médio Tapajós e Teles Pires. Como foi introduzido fora dessa área de distribuição histórica, ele é classificado como exótico invasor no alto Teles Pires."
Assim, embora o Rio Teles Pires faça parte da Bacia Amazônica, a região próxima ao município de Itaúba não integra a área de distribuição natural da espécie.
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Como o pirarucu chegou à região?
Os pesquisadores ainda investigam como ocorreu a expansão da espécie, mas algumas hipóteses já são consideradas.
Entre elas estão escapes acidentais de pisciculturas, introduções para pesca esportiva, descarte ilegal de exemplares utilizados em aquários e, principalmente, as alterações provocadas pelos reservatórios de usinas hidrelétricas.
Segundo o especialista em invasões biológicas, a formação desses reservatórios eliminou barreiras naturais e transformou trechos antes marcados por corredeiras em ambientes de águas lentas, condição favorável ao estabelecimento e à reprodução do pirarucu.
Predador altamente eficiente
Podendo ultrapassar dois metros de comprimento e mais de 100 quilos, o pirarucu reúne características que aumentam seu potencial invasor. Uma delas é justamente o cuidado parental observado no vídeo.
Segundo Ana Cláudia Torres Gonçalves, coordenadora do Programa de Manejo de Pesca do Instituto Mamirauá, o cuidado com os filhotes dura cerca de três meses.
"Quem cuida da prole é o macho. Os filhotes nadam sobre a cabeça do pai, aprendendo a respirar e a se alimentar. Enquanto isso, a fêmea permanece próxima, afastando possíveis predadores."
Ela explica que os adultos permanecem em águas rasas justamente para ensinar os filhotes a respirar e buscar alimento na vegetação das margens dos lagos.
Para a pesquisadora, essa estratégia reprodutiva ajuda a explicar o sucesso da espécie quando invade novos ambientes.
"O cuidado parental eficiente garante alta sobrevivência dos filhotes em relação às espécies nativas", completa.
Como predador de topo da cadeia alimentar, o pirarucu pode consumir grandes quantidades de peixes nativos, alterar as cadeias alimentares, competir por recursos e reduzir a biodiversidade local.
Piraruco é um dos maiores peixes de água doce
Cliff / Animalia
Invasoras consomem 70% a mais
Uma análise liderada por pesquisadores da UFPR e publicada na revista Biological Reviews mostrou que espécies invasoras apresentam, em média, taxas máximas de consumo de recursos 70% maiores do que as espécies nativas.
Isso significa que a presença dessas espécies pode prejudicar significativamente a fauna local. Além de competirem por recursos, elas apresentam maior consumo, o que pode provocar escassez de alimento para as espécies nativas e comprometer o equilíbrio ecológico.
De acordo com o estudo, esse padrão é ainda mais evidente em organismos de água doce e ajuda a explicar por que espécies invasoras costumam provocar impactos expressivos sobre a biodiversidade.
Pesca e controle populacional
Como consequência da expansão da espécie em áreas onde ela não é nativa, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) publicou a Instrução Normativa nº 07/2026, que reconhece o pirarucu como espécie invasora fora de sua área original de ocorrência.
A norma autoriza, nessas regiões, a pesca, a captura e o abate da espécie sem limite de tamanho ou de cota como medida de controle populacional.
Segundo Jean Vitule, a pesca ajuda a reduzir a quantidade de indivíduos, mas, sozinha, dificilmente elimina uma população já estabelecida.
Ele defende que o controle seja acompanhado de medidas como fiscalização em pisciculturas para evitar novos escapes, monitoramento científico, educação ambiental e incentivo à captura do pirarucu invasor, sem estimular sua expansão comercial de longo prazo.
Assim, embora o vídeo tenha encantado milhares de pessoas nas redes sociais ao mostrar um casal protegendo centenas de filhotes, o registro também evidencia um desafio crescente para a conservação dos ecossistemas brasileiros. O avanço de uma espécie invasora pode alterar profundamente a dinâmica dos rios onde ela se estabelece e reforça a necessidade de medidas de proteção e conservação do ambiente natural.
*Sob supervisão de Rodrigo Peronti.
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